Ricardo Correa

A Lagoa dos Patos

Os patos descansavam e sobrevoavam a lagoa, enquanto isso, bem acima 11 águias e muitos corvos reservavam planos para eles, um bando de pardais situava-se no meio de ambos. Os predadores começavam a ficar impacientes dispostos a cruzarem a massa pardacenta e alcançarem seus objetivos abaixo, nem que para isso fosse necessário afiar as garras e romper a muralha interposta. Sem o sol nem a lua como testemunhas naquele momento, apenas a avifauna se destacava na imensidão daquele deserto gelado e salgado.
De súbito uma águia, fêmea, que parecia ser a líder e tinha um olhar que revelava uma alma sem luz, resolveu retardar o ataque, porém um vigoroso macho da espécie já deixara claro que iria desfechar o ataque, porque ele simplesmente queria pegar o pato, e também tinha pato para todos, não era uma multidão que se manifestava contra eles que isso não iria acontecer.
Recuaram para um distante planalto para observarem se os revoltosos pássaros se continham em algum momento. Os patos que tinham a lagoa como moradia dependiam dela como um auxílio às suas sobrevivências, mas sabiam que sempre eles eram os que se serviam para saciar a fome irada das aves de rapina, desta vez estavam contando com o apoio dos pardais, mas este apoio era incerto porque o movimento de sustentação não iria aguentar muito, logo eles cansariam e iriam se manifestar em outras redes e aí o caminho estaria definitivamente aberto para que águias e corvos pegassem seus gorduchos que serviam como receitas complementares de seus berloques.
E não deu outra, os pardais foram agitar em outra vizinhança, o ataque aconteceu, bicos, garras e olhos esbugalhavam na carniça, nacos macios eram arrancados e pendiam-se ensanguentados, todos se fartavam comandados por uma fome implacável que parecia nunca ter fim.
Saciados momentaneamente, partiram os predadores sistêmicos de sua sina, agora por dois meses descansariam para depois voltarem ao ofício da crueldade instituída. Quanto aos pardais, dizem que estão por aí organizando outras festas de apoio mas que nunca deram em nada. Apenas, no máximo, alegorias de carnaval.