Rodapé Literário - Juscelino Pernambuco

Drummond e seus pensamentos

Sempre trabalhei com livros didáticos e um deles, em especial, ficou para sempre em minha memória de professor. A professora Magda Soares, com quem por pouco não fui trabalhar na UFMG, em Belo Horizonte, publicou nos anos de 1960, o livro Português através de textos, pela editora Bernardo Álvares S.A. e, tão logo eu o descobri, encomendei para adotar em minhas aulas no Ginásio “Clovis Salgado”, de Delfinópolis, MG. Lá eu dava os primeiros passos em minha carreira. Livro encantador o da Magda Soares. Do que eu mais gostava nele era a coletânea de aforismos que ela retirava das obras dos autores consagrados da literatura brasileira para usá-los nos exercícios de estilo, de análise sintática, de morfologia e de concordância verbal e nominal. Os textos que a autora colocou em seu livro para a leitura e exercícios de interpretação pelo professor e pelos alunos são o ponto alto do seu livro extraordinário destinado aos alunos do antigo ensino ginasial; da 5ª à 8ª série.
Meu último Rodapé Literário deste ano de 2017 começa com um trecho maravilhoso da crônica “Ventania”, de Carlos Drummond de Andrade, extraída do livro Fala amendoeira:
“As casas são navios que, enquanto mergulhamos no sono, levantam âncora para a travessia da noite. A imagem é de uma novela de André Gide, mas qualquer um pode recriá-la na solidão do quarto. Mesmo antes de cerrarmos os olhos, a casa navega. Sentimos a flutuação silenciosa, e nos deixamos ir ao embalo desse deslocamento surdo, sobre águas oleosas e invisíveis. No dia seguinte, a vida está no mesmo lugar.”
A original metáfora náutica: casas/navios, por si só, já valeria toda uma crônica, porém o texto todo é tão bem elaborado que precisaríamos analisá-lo na íntegra. Só não o faço porque quero trazer a você pensamentos de Drummond e, desse modo, guardo esse meu propósito para o primeiro Rodapé de 2018, se Deus continuar dando-me vida e saúde como tem feito com tamanha generosidade. Vamos a eles:
“Penso somente nessas amizades que o tempo vai esgarçando e substituindo por outras, com o cuidado pérfido de intercalar, entre os amigos de vinte anos e os de trinta, um espaço em branco para as incompreensões e as incorrespondências.”
“Gostaria que a vida nos desse tempo de vivê-la.”
“Quero aproveitar este dezembro para dizer-lhes que os meses passaram tão ligeiros, mas tão, que não houve tempo para revelar-lhes como eu lhes quero bem: e meu silêncio sabe como isso é verdade.”
“O ano, propriamente, se compõe de onze meses; dezembro não conta: é só para desejar que os restantes sejam propícios.”
“Quase todos carregamos a nossa cruz; alguns, além da própria, carregam a cruz dos outros.”
“Afinal, eu nunca poderia dizer ao certo se culpo ou se agradeço a Itabira pela tristeza que destilou no meu ser, tristeza minha, tristeza que não copiei, não furtei.”
“Há, é certo, os lugares históricos e os pseudo-históricos, que a memória vaidosa do povo indica ao viajante boquiaberto (todo viajante é boquiaberto por definição).”
“Nossa infância, em geral, constitui-se de bem mofinos episódios, que só para nós se identificam com a mais louca fantasia; há, é certo, um meio de transmitir essa herança personalística: a via poética. O mundo da infância é sempre um mundo murado.” (Andrade, C. D. Passeios na ilha)
“Aqui estamos, menino, com a nossa oferenda. É certo que nenhum de nós nasceu rei ou príncipe, mesmo de um reino improvável, e os nossos presentes são como nós somos; e nós somos como o boi e o burro, que pastam sem compreender, e continuam pastando.”
Até 2018.